#31 No fim do túnel

Chego aqui ao fim de mais uma história. Agradecimentos a todos que leram e tiveram paciência quando eu abandonei a história em outubro de 2017, para terminá-la apenas em março de 2018. Espero que tenham gostado.

Eu mesmo estava em cacos. O sabor amargo da bebida agora era o mais recorrente em minha boca. Os novos cigarros preenchiam meu pulmão com a fumaça de meus vícios.
─ Você é incorrigível. ─ disse-me ─ Não tem vergonha de desistir tão fácil?
Mas eu não respondi.
É claro que eu tinha vergonha! Principalmente depois de tanto recriminar a mãe por tudo, por tanto… Eu me envergonhava de ter-me tornado o mesmo crápula que ela fora.
Mas a verdade é que eu era incapaz de perdoá-la.
Por pior ser humano que eu fosse, nenhuma criança dependia de mim. Eu nunca havia tacado fogo na minha própria casa. Eu nunca acordara ninguém de madrugada para chorar desculpas bêbadas em seu ouvido.
─ Eu vou te assombrar até a sua morte. ─ continuou dizendo.
Mas toda a força para retrucar havia se esvaído do meu corpo. A Culpa me perseguiria. Não podia conviver com isso, não. Mas não tinha muita escolha. Deixar de lado o álcool e os cigarros requeria uma força e disciplina que jamais pertencer-me-iam enquanto eu ainda fosse incapaz de perdoar a mãe por aquilo que ela tinha-me feito tornar.
Mas perdoá-la era impossível.
─ Que assim seja.

#30 No fim do túnel

Culpa. Meu rotundo estado de culpa. Bem na minha frente, literalmente rindo da minha cara e dos meus trejeitos. Rindo da versão deplorável da mãe que eu me tornava a cada dia. A versão deplorável que ─ felizmente ─ a vó não havia sido obrigada a conhecer, depois de tanto cuidado que me dera enquanto a mãe se entregava aos vícios e a sua própria culpa. Era a minha vez agora, de lidar com meus fantasmas, de chorar as desculpas que não me seriam dadas. Eu não tinha ninguém a quem me desculpar. Ao menos aquilo eu havia feito melhor que a mãe ─ era impossível decepcionar alguém quando você não tinha ninguém a esperar nada de ti. Eu era só, meus vícios diziam respeito a mim, apenas. Meus vícios prejudicavam a mim, apenas. Meus vícios matariam a mim, assim como os vícios da mãe mataram apenas a ela.
Nós dois não éramos tão diferentes quanto eu me repetia dia após dia que éramos. Não, não. Eu havia aprendido com ela meus tenebrosos hábitos. Eu havia aprendido cada um dos meus pecados observando ela se matar aos poucos, saboreando a própria dor. Agora era minha vez de repetir o feito.
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