Buddha for Mary

circus
Esse texto faz parte do projeto PH Poem a Day, do blog Central da Leitura.
O tema de hoje é um texto baseado em uma música, então, caso queiram, haverá a música logo antes do texto. Caso não esteja vendo nenhuma dessas coisas clique em mais informações logo abaixo.

Caso esteja interessado, aqui você pode encontrar a letra e a tradução da música. (os links abrirão em uma nova guia do seu navegador)
 A manhã era fria, mas não demais. As manhãs nunca eram frias demais no Brasil, e ela estava do lado de fora, cercada pelas dezenas de tendas do circo em que vivia. Ela sempre achara curioso como aquele lugar podia ser tão vivo à noite, e tão sombrio durante o dia.
Era segunda-feira, e isso significava nada de espetáculos aquela noite. Mas praticariam mais tarde, e por isso ela estava vestida para tal, acrescentando o fino casaco verde escuro à blusa sem mangas e à calça colada.
Suas mãos estavam frias, mas ela não se importava. Podia esquentá-las escondendo-as sob as mangas do casaco.
Procurou um cigarro no bolso, e acendeu-o pondo na boca. A nicotina era apenas um de seus vícios, pensou, jogando fora a fumaça que já havia tomado seus pulmões.
O céu estava cinzento, e as árvores em volta balançavam fortemente com o vento, o mesmo vento que carregava a parte solta dos seus cabelos em sua dança. Não queria pensar em nada, o céu era suficiente.
De olhos fechados, deu mais uma tragada. Não achava o gosto da droga agradável, mas já era tarde para ela decidir isso. E, de olhos fechados, foi surpreendida por alguém. Ele sempre chegava por trás e lhe abraçava pela cintura, mas daquela vez ele lhe plantou um beijo no pescoço, logo abaixo da orelha.
Ela largou o cigarro, que caiu no chão queimado pela metade.
— Parabéns pelo espetáculo ontem. — ele sussurrou ao seu ouvido, e ela sentiu uma descarga elétrica percorrer o seu corpo como um arrepio.
— É o meu trabalho. — ela disse, e entrelaçou seus dedos nos dele, trocando um rápido beijo.
Era sempre assim. Era sempre bom.
 
E as noites de segunda-feira nunca tinham espetáculos. Era quando eles podiam passar um tempo juntos, olhando as estrelas. Muito embora o céu da manhã tenha sido coberto de nuvens, ele agora estava limpo.
Os pontos cintilantes lá do alto, brilhando, nunca pareceram tão próximos e distantes ao mesmo tempo.
— O que você acha? — ela perguntou.
Ele estava deitado na grama ao eu lado, suas mãos dadas.
— Do que?
— As estrelas.
— Como assim o que eu acho das estrelas?
— Se eu soubesse não teria perguntado.
Ele riu.
— Ah, Mary, quando você vai aprender que nem todo mundo pensa do mesmo jeito que você?
— Só quando me convencerem que as pessoas não têm mais salvação.
Mas as estrelas eram belas, de qualquer maneira. Ela pensava como era lá em cima, no céu. Estar no meio da escuridão, e ver pontos cintilantes para todos os lados.
Quando ela era criança ela imaginava que talvez pudesse se mudar para o espaço, e então morar lá, pulando de estrela em estrela e de planeta em planeta quando bem quisesse. Hoje, é claro, ela sabia que não era bem assim que funcionava.
O mundo não tinha mais tanta magia, e as pessoas não tinham mais tanto valor. As pessoas se tornaram objetos e ela se recusava a enxergar as coisas assim.
Mary sentou-se na grama, encorajando o outro a fazer o mesmo. Os olhos dele eram negros, e ele era o filho do dono do circo. Eles trocaram um beijo breve.
— Se eu fosse um objeto, o que eu seria? — ela perguntou, sem nenhum contexto.
Ele pareceu pensativo. Se fosse outra pessoa teria rido dela ou ficado perdido, mas ele já havia se acostumado àquilo.
— Acho que um ursinho de pelúcia. — ele sorriu, e eles trocaram outro beijo.
Mary sorriu.
— Você é fofo, mas mente. Sabe o que mais me assusta?
Ele fez que não com a cabeça, e ela chegou mais perto. Seu maior medo não é algo que possa ser dito em voz alta para qualquer um.
— Eu acredito em suas mentiras. — ela lhe segredou ao ouvido.
E então ela se afastou, e voltou a olhar o céu.
O céu da noite era belo, e as estrelas eram ainda mais belas em noites como aquela, em que não havia Lua.
— Se eu fosse um objeto — ela retomou o assunto após um longo período de silêncio —, eu seria um brinquedo. Aquele tipo de brinquedo que todas as crianças querem, mas nunca será o favorito de ninguém.
E logo após o fim dessas palavras ela se levantou e partiu. Aquilo acontecia com mais frequência do que parecia ser possível.
 
Mary jamais entendeu porque ele ia atrás dela. Talvez gostasse de vê-la enquanto ela se entregava a mais um de seus vícios, com suas pupilas contraídas de prazer. Ou talvez — e essa era a causa que ela preferia acreditar — ele apenas quisesse estar lá quando o efeito eufórico passasse, para impedir que ela se matasse.
Heroína.
Ela já estava pronta, e a agulha. Não havia mais nada entre ela e o lugar onde podia ser feliz.
— Há outras formas de conseguir isso, você sabe. — ele disse.
Aquela não seria a primeira vez em que ela se drogava, mas era a primeira vez que ele tentava impedi-la.
— O que quer dizer?
— Você sabe o que quero dizer, Mary.
Ele se aproximou e a separou da agulha, pousando-a no chão. Alguns centímetros de distância de ambos. Beijou-a, e ela aceitou o beijo, mas ao seu fim, a garota se afastou.
— Não quero. — ela disse, recuperando a droga.
A agulha estava muito próxima da sua pele, só faltava a coragem para fazê-lo mais uma vez.
— A sensação é quase a mesma. — ele argumentou.
Ela riu.
— Fácil falar para você que é homem. — então ela olhou em sua direção — Não vai dar certo, principalmente na primeira vez. Desculpe. Prefiro a certeza que a dúvida.
A ponta metálica encostou sua pele, ao lado dos furos não cicatrizados das vezes anteriores. Nem sentia mais nada. Já havia se acostumado.
— Você não pode estar falando sério.
— Mas estou.
— Não me conformo.
— E o que você vai fazer? Me estuprar?
Ele ficou em silêncio. Era difícil olhar para ela.
— Você acha mesmo que eu seria capaz disso?
— Somos capazes de mais coisas do que achamos ser possível.
— Essas palavras magoam.
— E essa é mais uma de suas mentiras.
— Por que não deixamos a política para homens tolos? — ele se aproximou.
Seus narizes se tocaram, e suas testas. Mary não sabia como resistir a ele.
— Nós somos tolos e… — ela fez uma longa pausa, respirando a respiração dele — eu tenho medo — sussurrou a última parte.
— Medo de mim? — ele lhe deu um beijo breve, e ela fechou os olhos.
— Medo disso.
— Talvez você devesse rezar por coragem.
— Mas eu não acredito em Deus. — e com um beijo final, ela se entregou.
 
E Mary estava certa, porque não valeu à pena. Era um dos efeitos da droga.
Estava frio, e o corpo dele era quente, mas ela se levantou mesmo assim. Seu movimento acordando-o.
— Aonde você vai, Mary?
Mas ela não respondeu, apenas foi atrás da agulha, que estava ali perto, e quando a achou, voltou para a o lado dele. A droga estava próxima mais uma vez, e ela só precisava recuperar a coragem de usá-la.
— Não deu certo, não é mesmo? — ele perguntou, sentando-se ao seu lado.
— Desculpe. — pediu, sem olhar nos olhos dele.
— Não. Mas é isso mesmo o que você quer?
Ela fez que sim. Não sabia mais viver longe da droga.
Ele pegou a agulha da sua mão, e percebeu o quanto ela tremia quando ele a aproximou de sua pele.
— Desculpe-me você — ele falou, apertando o êmbolo que levava a droga até o sangue da garota —, por não ajudá-la a ser uma pessoa melhor.
Mas Mary não prestou atenção. O mundo dela estava próximo, o lugar onde ela podia ser quem ela quisesse ser. Mesmo que por apenas alguns instantes.

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