#20 No fim do túnel

Tirei outra garrafa da geladeira, dessa vez mais forte. O líquido desceu rasgando. Senti meu corpo queimar. Ah, o gosto do álcool! Nada poderia ser mais puxativo que os sentimentos que me confundiam naquela madrugada.
Os cigarros tinham gosto de poeira.
Todo o quarto cheirava à fumaça, álcool e nicotina.
Todos os cheiros da mãe.
Virei todo o conteúdo da garrafa, o mais rápido que pude.
Queria era apagar, não ter como pensar em nada. Se não pensasse não sentiria dor.
Tudo parecia acontecer em câmera lenta.
Me certifiquei de apagar o cigarro no cinzeiro ao lado da cama. Não queria ocasionar outro incêndio que nem aquele da sua infância. Por que, mãe, por quê? Por que colocou fogo nas nossas cortinas, mãe? Agora a casa tá toda pegando fogo, a gente tem que fugir. Mãe! Anda, mãe! Cuidado, as escadas. Quanto você bebeu, mãe? A gente tem que sair, a casa tá pegando fogo. Eu não aguento te carregar, mãe, você tem que vir comigo. Vamos, você consegue vir sim. Eu sei que você consegue. Mãe, vamos logo! Os móveis tão pegando fogo, tá tudo pegando fogo. A fumaça tá ficando mais densa, vai ficar difícil pra respirar. Mãe!


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