#21 No fim do túnel


Os pássaros cantando lá fora eram irritantes. Não queria acordar, não queria abrir os olhos. Mas os pássaros lá fora eram irritantes. Abrir os olhos para dar de cara com a forte luz do sol. Queria era permanecer apagado. Mas os pássaros lá fora eram irritantes.
Bufei, finalmente rendendo-me à vida. 
O sol já se punha novamente. O crepúsculo tingia o céu de roxo. 
Mas eu não ia olhar. A noite é que era meu momento. Momento da minha dor de cabeça lancinante que eu curaria com cigarros e mais álcool.
A fome acometeu meu estômago.
Levantei-me.
Quando eu ia a geladeira buscar bebida, eu nunca reparava nas fotos da mãe presas na porta da geladeira. Tirei uma delas, olhando-a mais de perto. Um vestido azul cheio babados, cabeleira armada enleada de frufrus. A foto da mãe comemorando seus quinze anos. Mil novecentos e sessenta e quatro.
Ri de amargura. Quem diria que anos mais tarde… anos mais tarde… Ninguém. Ninguém diria assim como ninguém disse mesmo depois que tudo aconteceu. Ninguém dizia nada. 
─ Filha de uma puta! ─ praguejei. 
A maldita que arruinou minha infância.
Mas agora… Agora eu era igual a ela.
Guardei a foto no congelador.

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