#22 No fim do túnel

Deixei mais uma gimba de cigarro sobre o prato, ao lado dos rebotalhos da pouca comida ruim que fui capaz de me preparar.
Tudo doía, mas os cigarros me faziam bem. Eles me ajudavam a curar a ressaca, cada um deles. Perguntava-me como consegui passar tanto tempo longe daquele vício.
O cheiro de bebida impregnava o quarto, mas os cigarros ajudavam a disfarçar.
Meu hálito quente tinha odor de podridão.
O mesmo hálito da mãe.
Lembrava-me dele ainda. 
Não dava pra sentir um cheiro dela ─ o cheiro de uma viciada ─ nas fotografias que estavam espalhadas pela casa.
Ela era uma farsa.
Não dava pra ver naquele sorriso a mulher que chegava em casa completamente bêbada de madrugada, chorando suas desculpas.
Mas eu não desculpava. Eu não conseguia desculpar. Não depois de tantas promessas quebradas, eu não podia.
Não era igual a mãe porque jamais prometera pra ninguém que ia parar. Não era igual a mãe porque ninguém dependia de mim.
Não era igual a mãe porque não era mãe.
E quando ela tentava, eles diziam que tinha que ter paciência com ela. Que ela precisava da minha ajuda pra ficar bem.
Mas nenhum dos que diziam era eu.

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