#25 No fim do túnel

Eu me lembro ainda do dia que ela morreu. Me chamaram pra reconhecer o corpo, a vó tava fora da cidade. Só tinha eu. Quando cheguei e vi que os traços sob a mortalha eram mesmo os dela, agradeci às forças divinas por livrar-me daquele tormento. Nunca, jamais, eu precisaria ocupar-me novamente de procura-la em delegacias e hospitais junto com a vó porque a mãe não voltara pra casa na noite anterior. Nunca mais seria acordado com seus berros, com seu hálito bêbado sussurrando desculpas no meu ouvido por ter feito tudo aquilo de novo. Nunca mais. Nunca mais! Eu não chorei a morte dela. Nem naquela hora nem no velório. Tudo que a mãe sempre foi era um problema, e sem ela no caminho a minha vida seria tranquila. Mal sabia eu que ela não me deixaria em paz nem mesmo após a morte. Os traumas que ela gravara na minha alma eram profundos demais pra se dissiparem assim que sua forma carnal me deixasse em paz. Ela me deixou com a dúvida, a dúvida de ser uma pessoa ruim demais por não conseguir perdoar os seus erros. A dúvida de se ela acabaria melhorando algum dia. Apenas dúvidas.
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