#30 No fim do túnel

Culpa. Meu rotundo estado de culpa. Bem na minha frente, literalmente rindo da minha cara e dos meus trejeitos. Rindo da versão deplorável da mãe que eu me tornava a cada dia. A versão deplorável que ─ felizmente ─ a vó não havia sido obrigada a conhecer, depois de tanto cuidado que me dera enquanto a mãe se entregava aos vícios e a sua própria culpa. Era a minha vez agora, de lidar com meus fantasmas, de chorar as desculpas que não me seriam dadas. Eu não tinha ninguém a quem me desculpar. Ao menos aquilo eu havia feito melhor que a mãe ─ era impossível decepcionar alguém quando você não tinha ninguém a esperar nada de ti. Eu era só, meus vícios diziam respeito a mim, apenas. Meus vícios prejudicavam a mim, apenas. Meus vícios matariam a mim, assim como os vícios da mãe mataram apenas a ela.
Nós dois não éramos tão diferentes quanto eu me repetia dia após dia que éramos. Não, não. Eu havia aprendido com ela meus tenebrosos hábitos. Eu havia aprendido cada um dos meus pecados observando ela se matar aos poucos, saboreando a própria dor. Agora era minha vez de repetir o feito.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe a sua opinião! Ela é muito importante para mim.

© Giulia F Ferreira - 2016. Todos os direitos reservados. Criado por: Giulia F Ferreira. Tecnologia do Blogger.